Saudade sim x Saudade não

Fazem quase três meses que estou morando nos Estados Unidos e saudade é o sentimento que prevalece, tanto para quem está aqui há um mês ou há anos. Não adianta julgar, só quem passa pela experiência sabe… Sentimos saudade de coisas pequenas, bobas e de coisas grandes.

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Eu particularmente sinto saudade dos meus amigos, de viajar com eles, da cerveja gelada na Vila Madalena, da comida, das músicas, da minha família, do meu apartamento e até de trabalhar dentro de um escritório.

Mas, esse final de semana fui com algumas amigas almoçar em uma padaria brasileira e comprar algumas coisas em uma loja também brasileira e tive uma outra visão da coisa toda. Com donos e a maioria dos clientes nascidos no Brasil, pude lembrar de coisas que não me dão saudade nenhuma. Que fique claro que não estou aqui para falar mal do meu país, longe disso.

Os funcionários dos lugares trabalhando de mau humor e te tratando como se estivessem fazendo um favor, as pessoas gritando, te olhando dos pés a cabeça e comentando alguma coisa com o amigo do lado e a TV que estava ligada na Globo me fez lembrar como os finais de semana podiam ser chatos.

No Brasil a gente se mata de trabalhar a semana toda e às vezes não tem dinheiro para sair no final de semana, porque não dá pra fazer muita coisa sem gastar no mínimo R$ 50,00. Se não temos carro, que é caro por sinal, precisamos pegar transporte público/táxi e demorar horas para chegar em algum lugar ou na melhor das hipóteses podemos escolher depender da carona de alguém. Tem também aqueles dias que você está tão cansado que não quer fazer nada, mas não fazer nada parece muito “loser” em um país que te cobra ser feliz, descolado, o cara da balada. E a TV ligada só me fez lembrar o quanto a programação entediante não ajudava em nada.

Lógico que aqui também tem muitos pontos ruins, mas já cheguei a ir de madrugada no supermercado e ser recebida com um sorriso, um oferecimento de ajuda e um desejo de boa noite, que inclusive nunca me pareceu forçado. Aqui também posso sair de pijama na rua que ninguém se quer vai olhar. Outro dia uma amiga caiu dentro de um restaurante cheio e ninguém viu, talvez porque estavam mais preocupados com as pessoas que estavam na mesa compartilhando aquele momento. E olha que eu super queria alguém que me ajudasse a rir da cara dela naquela hora haha.

Aqui eu também posso sair para fazer compras sem ser considerada rica, posso comer e beber sem ficar pobre pro resto do mês, pego o meu carro e chego no lugar que eu quiser, posso ficar em casa sem fazer nada de vez em quando sem morrer de tédio ou sem aquela sensação de estar perdendo a vida e muitas vezes troco a balada por um open house com quatro amigas. Sem contar as possibilidades de viagem.

No dia em que eu for embora tenho certeza que vou sentir muita falta de tudo isso e pra sempre vou viver uma dualidade. E de saudade sim vs. saudade não vou seguindo minha louca e incrível experiência longe de casa.

“Eu aprendi uma coisa ainda muito nova: não dá para ter tudo na vida. Para conseguir uma coisa, é preciso abrir mão de alguma outra coisa. Não existe exceção. Ao escolher uma, você está renunciando a outra”. (Fernanda Naute – Fêliz com a vida).

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2 comentários sobre “Saudade sim x Saudade não

  1. Sabe, Sah, não tive nem um terço da experiência que você está tendo, mas não tem um dia que eu não acorde pensando que poderia estar lá e não aqui. Lá as pessoas diziam “thank you for your purchase, have a lovely day” ou só “have a lovely day/week/weekend” e aquilo fazia meu dia de uma forma… Eu respondia de peito cheio, sorrindo, sendo feliz por cumprimentar alguém de uma maneira que nunca tinha presenciado. Conversamos sobre Buenos Aires quando voltei de lá; achei as pessoas mal-humoradas e piores que paulistanos em dia de trabalho. Mas em Londres… Apesar de ninguém pedir licença para sentar ao seu lado no transporte público (passei a não fazer mais isso aqui, pois, na maioria das vezes, não respondiam mesmo), eles pedem desculpa se encostam a ponta do cabelo em você. Eles entregam a notinha de compra, junto com o troco de um, dois, três pennies, sem reclamar. Eles não desconfiam que você está roubando alguma coisa, só porque entrou na loja e saiu sem levar nada. Às vezes o sorriso não existia, porém o “have a wonderful day” me fazia um ser-humano mais feliz.
    Não tem um dia no transporte público de SP que eu não pense como queria estar lá, mesmo com a linha com problema, não sendo empurrada para entrar, sem passar calor no metrô, sem ser encoxada por ser uma mulher de saia. Não tem um dia que eu não sinta falta de cantar na rua sem que olhem torto para mim.

    Saudade de você, Sahzinha. Aproveite muito enquanto você está aí!

  2. Pois é, Fran. Exatamente isso que eu enxerguei.
    Acho que às vezes minha cabeça cria uma fantasia em relação ao Brasil, por ainda ser a minha zona de conforto. Mas esse dia me fez ver tudo o que eu não gostava no Brasil e estou aproveitando mais do que nunca tudo por aqui.
    Um dia, quando eu voltar, sei que vou sentir saudade de tudo isso.
    Muita saudade, Fran!
    Um beijo! :*

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